[Entrevista] “No meio do caminho tinha um padre…”

Vanderlei Cordeiro conquista o bronze e entra para a história dos Jogos Olímpicos

Vanderlei Cordeiro de Lima nasceu no dia 4 de junho de 1969, no interior do Paraná, em Cruzeiro do Oeste, para ser mais exato.

Com 16 anos, o menino “Bodega” – apelido que ganhou ainda na infância – começou a participar de provas de atletismo.
Depois de se destacar nas provas regionais, foi chamado para defender Maringá nos Jogos Regionais.

Anos depois, foi para São Paulo para treinar e se dedicar exclusivamente ao atletismo. Em 1992, começou a ser destaque nacional com o 4º lugar na Corrida de São Silvestre, dois anos depois, era para ser apenas o “coelho” – atleta que corre com ritmo maior para “puxar” o pelotão da frente – mas acabou vencendo a Maratona de Reim, na França.

Hoje com 43 anos, Vanderlei acumula uma série de conquistas pessoais e é um dos atletas mais lembrados em época de Jogos Olímpicos, devido ao ocorrido nos Jogos de Atenas, na Grécia.

O “abraço” do religioso custou o ouro nos Jogos de Atenas, mas mudou a vida de Vanderlei Cordeiro de Lima

Depois de participar de três olímpiadas: em 1996 ficando na 47ª posição, em 2000 ficando na 75º posição; Vanderlei apostava em um resultado melhor na Olimpíada de Atenas, em 2004. No ano em questão, tudo ia bem até o KM 36, quando Vanderlei, que liderava a prova, foi atacado por um religioso irlandês, Cornelius Horan. Ele só conseguiu retornar à corrida com a ajuda de um grego que assistia a prova. O atleta ainda conquistou o bronze para o Brasil.

O maratonista encerrou a vida nas pistas ficando com a 109ª posição na Corrida de São Silvestre, em 2008, quando estava com 39 anos.

Confira a entrevista:

[Z] Como foi o seu começo de carreira? Você corria voltando da lavoura, queria que você falasse sobre isso.

[V] Eu comecei a correr nas atividades de educação física, o professor sempre pedia pra correr, na verdade despertou a atenção dele pra representar a escola nos jogos escolares. Esse foi o primeiro contato que eu tive com o atletismo. E naquela época eu tinha um amigo meu que também era atleta e corria na região. Eu comecei a treinar de vez em quando com ele, e aí participava das corridas na região, mas o objetivo no começo era mais a oportunidade de poder viajar, o esporte me proporcionava isso, conhecer novas cidades, viajar o interior, então esse era o primeiro objetivo que tive no início da minha carreira. Depois eu fui gostando, foi uma fase bastante difícil, meus pais trabalhavam na roça, e muitas vezes eu tinha que ajudar eles, na ida para o trabalho, me deslocava, cinco, dez, quinze, vinte quilômetros, no retorno eu deixava o transporte e vinha correndo, vinha treinando. Era o único horário que eu tinha.

[Z] E o Vanderlei foi sempre do atletismo ou tentou jogar futebol?

[V] Na verdade, eu gostava muito é do futebol. A vontade era de um dia me tornar um jogador de futebol, mas um sonho muito distante, meio que impossível de acontecer. E no atletismo não, era algo que só dependia de mim. Nunca passou pela minha cabeça que eu pudesse dentro do atletismo ir tão longe, quando eu comecei a correr, eu não tinha nem noção do que era realmente o esporte. Fui conhecendo ao longo da minha carreira e não foi nada que logo no começo me criasse uma expectativa, que eu iria me tornar um grande atleta, na verdade, esse sonho eu fui construindo depois.

[Z] E como você acabou virando atleta profissional? Como que foi essa mudança, de no começo competir para viajar e depois se tornar um atleta profissional?

[V] Tudo veio em consequência da melhora dos resultados. A primeira vez que eu vim pra Maringá foi em 1986, eu vim trabalhar numa fábrica de móveis, eu fiquei até final de 1986. Em 1987, eu voltei para Cruzeiro e depois voltei para Maringá de novo. Quando fui atleta da Associação Atlética Ingá, aqui de Maringá, e foi onde eu comecei a ter oportunidade, fui federado e participei dos campeonatos oficiais aqui no Paraná, onde fui campeão e recordista dos 1500 metros e dos 5000 metros. E depois pintou a oportunidade de estar indo pra São Paulo. Em 1988, eu tive o convite pra ir para (a equipe) Eletropaulo, em São Paulo, foi a partir daí que eu comecei de fato a viver do esporte.

[Z] E como está o Vanderlei depois de se aposentar?

[V] Aposentadoria das pistas né? Eu queria que a aposentadoria fosse uma realidade, mas eu me sinto um atleta privilegiado, mesmo encerrando minha carreira, ainda continuar com vínculo com o clube, com meus patrocinadores, e hoje sou padrinho do clube. Isso é um reconhecimento de toda a história que eu tenho, não só dentro do esporte, mas também na instituição. Faz com que eu possa ajudar o atletismo a crescer cada vez mais, porque o meu papel hoje não é só estar promovendo as instituições, mas sim o atletismo.

[Z] Vanderlei, há uns quatro anos eu entrevistei uma das suas filhas em um campeonato de Atletismo no Colégio Objetivo (em Maringá). Nenhuma das duas filhas resolveu partir para o atletismo?

[V] Elas estão mais focadas nos estudos mesmo, buscando se formar dentro dos estudos e da área que elas estão estudando. Uma está fazendo psicologia e tá no 2º ano. Dentro da minha casa, eu nunca forcei ninguém, não coloquei nenhuma imposição que tinha que ser igual ao pai e tinha que ser atleta. Deixei elas a vontade para decidir o que era melhor pra elas. Tem que ser de uma forma natural. É claro que muitas vezes o incentivo é fundamental, mas vejo que elas não tinham muita aptidão para seguir uma carreira.

[Z] Vanderlei você participou de três Olimpíadas, como é o clima nessa competição?

[V] A Olimpíada está acima de qualquer outro evento esportivo, na verdade é um ambiente que não se compara a nenhum outro. Só quem realmente viveu o clima, sabe do que eu estou falando. É uma oportunidade que muitos buscam e poucos conseguem alcançar, são poucas pessoas que conseguem. É algo que realmente transforma a vida do atleta, na maneira de pensar, na maneira de buscar os resultados.

[Z] Vanderlei, você está acompanhando a preparação do país para receber as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro? O que podemos esperar desses Jogos Olímpicos?

[V] De todas as estruturas que foram feitas para os jogos Pan-americanos, nem todas foram aproveitadas na busca de condição para os atletas. Muitas foram abandonadas, não tiveram uso e isso não era pra ter acontecido, na verdade era pra ter melhorado as condições e a preparação desses atletas na busca por um bom resultado em Londres. As coisas no Brasil são sempre mais lentas, a maioria dos complexos esportivos [de Londres] ficou pronto bem antes do último ano para a competição. É algo que no meu ponto de vista, não vejo que vai acontecer no Brasil. Que a gente possa levar um pouco mais da cultura esportiva para o conhecimento da nação brasileira, na verdade a gente não tem essa cultura de conhecer o esporte, nós só conhecemos o futebol, é o país do futebol. Quando você compara com um país da Europa, da América do Norte e da Ásia, você vê que as pessoas tem o esporte e são conhecedoras dos esportes e não apenas de um esporte.

[Z] O que, profissionalmente falando, tem um peso maior, a medalha de bronze na Olimpíada de Atenas ou a medalha Barão Pierre de Coubertin?

[V] Minha medalha de bronze é uma medalha que não tem preço, mas a conquista da medalha de bronze foi algo que eu vivi o calor da emoção. O atleta busca a superação dos seus próprios limites para vencer seus adversários, e a medalha de bronze foi quando eu concretizei esse sonho. Eu sei da importância da medalha Barão Pierre de Coubertin, isso foi uma consequência da medalha de bronze e da atitude, do respeito aos valores que o esporte prega. O meu sonho era um dia ganhar uma medalha olímpica, e esse sonho graças a Deus eu alcancei, não foi o sonho dourado, mas foi o sonho de bronze.

[Z] O que passou na sua cabeça no momento que o fanático religioso te abraçou?

[V] Na verdade, o modo como ele me atacou, de lado, foi algo que eu me deixou indefeso. Mas eu estava tão concentrado e focado na corrida que mesmo diante daquela situação, em momento algum passou pela minha cabeça desistir. Eu só queria sair daquela situação e continuar aquilo que eu estava fazendo, e esse foi o meu pensamento naquela hora, na verdade nem pensei em revidar. Na verdade, quando eu cheguei ao final da corrida, no estádio, eu sabia que tinha ganhado a medalha de bronze, eu já tinha esquecido o fato. Foi muito mais relevante a conquista da medalha do que o próprio episódio e o impacto que aquilo acabou provocando no resultado final da prova.

[Z] Se você pudesse encontrar os dois personagens envolvidos naquele dia 29 de agosto de 2004, o que você diria para cada um deles?

[V] O grego eu tive a oportunidade de encontrar em 2004, no Prêmio Brasil Olímpico, é uma pessoa formidável, foi a pessoa que teve uma visão rápida para me tirar daquela situação. Ele como ex-jogador de basquete, deve ter interpretado qual seria o meu sentimento naquele momento. Agora o fanático religioso, eu nunca pensei que pudesse haver esse encontro, eu não vejo porque ter esse encontro é algo que eu acho que não valeria nem a pena eu encontrar. E se encontrasse acho que o meu silencio acabaria dizendo tudo, aquilo que eu gostaria de dizer pra ele. E mesmo diante daquela situação, de tudo que aconteceu comigo, eu nunca senti rancor, mágoa daquela pessoa, nunca senti raiva dele. Mesmo diante daquele fato que mudou o rumo da história da maratona e também mudou o rumo da história do Vanderlei, eu acho que tudo na vida tem sempre um propósito de Deus. Acho que tinha que ser daquela forma, com aquele obstáculo, era mais um dos muitos que eu já havia enfrentado ao longo da minha carreira, e talvez tenha precisado algo tão impactante para que eu pudesse ter esse reconhecimento hoje dentro do meu país.

[Z] Gostaria que você explicasse como funciona o Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima (IVCL).

[V] Depois de ter planejado encerrar minha carreira e tudo, eu já havia conversado, que queria fazer algo dentro do esporte, deixar um legado. Eu queria proporcionar algo que eu não tive no começo da minha carreira, que foram oportunidades. Na verdade, as oportunidades que eu tive, fui eu que apareci para a oportunidade. Eu vejo que o esporte foi a única oportunidade que tive, então eu agarrei ela e fiz realmente ela se tornar uma realidade. Hoje através do instituto a gente faz uma inclusão social através do esporte. Estamos estruturados com um núcleo esportivo e um educacional, a gente tem profissionais capacitados para dar todo o suporte. A gente não pode chegar para uma criança, um adolescente, e porque ele é gordo ou porque não tem uma aptidão, ou um biótipo certo pra fazer o esporte que nós vamos excluir ele, a gente não pode fazer isso. Gordinho ou magrinho, ele vai fazer parte, ele vai se integrar, vai passar por todas as fases, descobrindo todas as modalidades do atletismo. O Instituto trabalha com crianças entre doze e 17 anos. E agora como tem uma demanda muito grande de crianças menores de dez anos, estamos implantando o “mini atletismo”, para conseguir atende-las. Todos os materiais usados no “mini atletismo” são materiais que a gente consegue adaptar. Você pode pegar uma garrafa pet, um cabo de vassoura, uma caixa de papelão, que você consegue dar os fundamentos do esporte.

Relembre a trajetória de Vanderlei Cordeiro de Lima nos Jogos de Atenas:

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